O mundo continuou, mas ela não. Parou, se esgueirou pelas entranhas do tempo. Deixou suas marcas no coração de outras pessoas, mas obviamente, corações tendem a esquecer, assim como os sentidos tendem a transformar tudo o que viveram em um sonho. Uma ilusão, uma mera ilusão do que poderia ter sido, se ela não tivesse ficado presa. O mundo continuou, mas ela ainda assistia a filmes infantis e fingia não se importar com situação crítica do país. Quebrou laços pessoais que anteriormente julgou inquebráveis. Vestiu meias coloridas e amarrou no cabelo fitinhas de cetim, como se fosse uma capa sobre a sua personalidade insana. Fingiu que não conhecia os demônios que lhe assombravam a mente e se atrasou, como se aquilo fosse livrar-lhe das responsabilidades. Usou a voz mais infantil que conhecia ao deixar as pessoas com que esteve, alegando ter enjoado. Não enjoou. Era medo de coisas sérias. Fugiu do que sabia que faria mal. Prefiriu não sentir, a sentir dor. Não morreu, mas também não viveu. Apenas existiu.
O mundo continuou, mas eu não.