sexta-feira, 19 de agosto de 2011

- Então… Como você se sente? – O homem, com óculos meia-lua levemente apoiados na ponta de seu nariz e cabelos quase brancos, perguntou. A menina – rosto de menina, cabeça de mulher – encolheu os ombros, ergueu as sobrancelhas. Não sabia o que responder diante daquela pergunta tão simples em seu formato e imensamente complexa em seu significado.

“Se eu ao menos soubesse…”, ela pensou. “Se eu soubesse explicar, eu diria. Às vezes tudo passa pela minha cabeça tão rápido que eu nem tenho tempo de identificar o que foi aquilo. São como relâmpagos. E eles me cortam e me estraçalham e acabam comigo. Rápido assim. Eu penso que a dor deveria ser imensurável, insuportável, mas não é. Eu não sei, sabe? Não sei. Como é que alguém tão pequeno assim aguenta ser quebrado ao meio todos os dias e não quebra por fora também? Como é que alguém assim anda, e fala, e ri, mas não se olha no espelho por muito tempo porque tem medo? Antes o problema fosse o espelho… Antes fosse… “

– Como você se sente sendo você mesma? Debaixo da própria pele?

Ela suspirou. Milhões de explicações perpassavam seus pensamentos, mas nenhuma conseguia ser exteriorizada. Engoliu em seco quando a dor constante deu uma pontada. “Eu queria ter vontade de chorar. Mas chorar por mim mesma e não por aquilo que eu vejo e me comove. Eu queria conseguir chorar pela minha própria situação e não pelo resto. Disseram que eu pareço seca por dentro. Mas não é por dentro não, é por fora. Por dentro a minha alma dói e tudo dói, até minhas tripas doem. Eu só queria tirar isso de mim.”

Suspirou, vencida. Enquanto seu cérebro gritava, sua boca não pronunciava sequer um som.

- Vazia.

Sobre o início

Eu voei. Com um romantismo desconhecido incrustado em minha alma, eu abri o meu pequeno par de asas e levantei vôo rumo às terras desconhecidas, ao infinito. Eu flutuei. Acima de tudo. A possibilidade me levou adiante; a surpresa me fez saltar e na garganta ficaram presos um ou dois suspiros. Não por ter algum tipo de certeza, mas por enxergar uma possibilidade de restituição de valores e crenças até então esquecidas em algum lugar do meu passado transtornado. Eu quis. E desejei imensamente por um ínfimo conjunto de horas que o meu âmago continuasse mergulhado naquele estado total de ilusão. Eu implorei para que aquilo me salvasse de mim mesma e repeti na mente aquela frase típica dos meus dias de suplício: “Livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor.” Como se você pudesse. Como se alguém pudesse. Eu pensei em deixar transparecer. Tentei. Coloquei o mínimo possível daquilo que achei que fosse motivo de júbilo para fora.

Alguém riu da minha cara. A realidade deu o ar da graça na soleira da minha porta.

Então, eu acordei. E, para o fim daquilo que não foi, até que não doeu.
Faz assim: me rasga ao meio, me quebra em quantos pedacinhos você bem entender, me machuca, me faz qualquer coisa que quiser. Não ligo se pareço meio ignorante. Me dá uns murros, dois ou três, na boca do estômago ou bem no fundo da alma. Me preenche. Pode ser bruto. Pode fazer o que quiser. Eu estou pedindo, por favor, implorando. Fico de joelhos se quiser. Mas se for fazer, Amor, faz direito, pelo amor desse seu Deus, faz bem forte, que eu preciso… Que eu quero sentir…
Então, acho que vou. Queria ir de verdade, pra valer, sem olhar pra trás, com o coração tranqüilo e a alma leve. Acho que vou. Não de verdade, com o olhar em você, o coração angustiado e alma pesada. Porque é assim que é. É assim que é quando penso em abrir mão – quanto mais penso, mais me prendo. Quanto mais me proíbo, mais te quero, mais te preciso preenchendo todos os meus cantos.

Eu gosto dos teus defeitos. Eu gosto da nossa facilidade, das ideologias estudadas. Gosto de como temos a capacidade de conversar por horas sobre as-profundezas-da-alma-humana. Eu só não gosto quando me machuca. Mas eu te aceito assim porque é assim que és. Mesmo com as meias palavras, as frases feitas, a inconstância, a sua falta de atitude.

Eu aceito. Mas você me dói.
O número conhecido pairava na pequena tela.

O aparelho celular precisou vibrar três ou quatro vezes antes que sua proprietária o pegasse em mãos.

- Alô? – Falou, a firmeza forjada em sua voz para uma tentativa – frustrada, deve-se ressaltar – de não parecer abalada pela surpresa que era receber um sinal de existência daquela pessoa que tanto adorava. Suas pernas bambearam e ela apoiou-se no balcão próximo, esperando a resposta que não veio.

Não viria.

Encolheu os ombros. Queria algo a mais; nunca estava satisfeita com o que tinha. A respiração tornou-se pesada devido à possibilidade de ouvir o som que a confortava em algumas poucas noites não-tão-vazias, quando a outra pessoa estava ali também.

Nada.

Um minuto.

Achou que fosse um engano, que talvez tivesse apertado a discagem automática sem a intenção de realmente falar com ela. Por acidente. Os olhos marejaram, revelando ali coisas que ela preferia não sentir.

- Ei… – Chamou de novo, baixinho, quase como uma lamúria. Um pedido desesperado por atenção. Por carinho. “Por favor, por favor, fala comigo. Eu não gosto de quando você some por muito tempo.”

Ao invés de dizer, suspirou. Segundos antes de levar o dedo ao botão aonde encerraria a chamada, houve o choque. A felicidade. O disparo desesperado no peito:

- Só queria ouvir você respirar.

Tu-tu-tu-tu…
Pra começar, não sei. Estou sozinha em casa às duas e vinte e sete de um Domingo parcialmente infeliz em que minha mãe resolveu pra ir pra balada. Eu chorei por um tempinho porque li umas coisas bem profundas que nem ao menos dizem respeito a mim e aí eu pensei: Cara, que figura deprimente. Que cena digna de filme mexicano. E eu falei pra mim: linda, sua mãe tá aproveitando mais a vida do que você. Sua mãe, aquele poço de frieza, tá lá, se divertindo, virando umas tequilas com os amigos – algo que você não faz há um bom tempo porque, qual é, quem são os teus amigos que realmente estão dispostos a entornar umas curtas com você num dia e no outro realmente darem a mínima se você está do lado ou em casa ou na puta que pariu? Eu fico pensando nessas coisas, sobre amizade. É foda. A gente descobre que umas que estiveram ali a vida toda não querem mais estar no seu futuro e outras que chegaram agora queriam estar ali no passado só pra entender melhor como você chegou aos dezessete anos ferrada desse jeito.

Nem eu sei. Acho que isso tudo é mal do século XXI. Antes, ninguém tinha depressão sem causa detectada. Antes digo, há um bom tempo atrás. Eu acho que depressão nem existia há uns séculos atrás – tô falando dessa depressão estudada pelos especialistas onde eles culpam a sua infância toda pelos seus males e aí te receitam umas pilulazinhas azuis, vermelhas, amarelas, que seja, no final das contas é tudo tarja preta mesmo. Esse não é o ponto, o que eu quero saber é: será que alguém, em algum momento muito distante ou mais perto do que eu imagino já sentiu essa porcaria toda? É porcaria ou é doença?

Porque, cara, eu era tão viva. Do tipo de pessoa que se você olhasse por dentro, dava até inveja. E agora eu tô aqui, sentada com os meus gatos e me perguntando se algum dia vão – ou vou – reacender aquela chama de vivacidade em mim. Mesmo que eu tenha parado de acreditar nela.

É que, porra, eu vivi tanto e eu senti tanto e doí tantas vezes que eu acho que eu perdi as esperanças de se sair disso ilesa. Eu sempre fui muito convicta de que “ah, ninguém morre de coração quebrado, não vai acontecer nada comigo que vá me impedir de seguir em frente, porque pedra no caminho a gente chuta e bla bla bla”, mas olha só pra mim agora. Eu queria que alguém olhasse pra mim e visse que eu to desmoronando e que a queda não vai ser brincadeira não; vai triturar meus ossos e não existe médico no mundo que seja capaz de reconcertar o estrago.

Meu pai me disse uma vez, há uns três anos atrás: Você tem 15 anos e já se sobrecarrega desse jeito.

Daddy, você não tem noção como eu cheguei nos 17. O peso cedeu. Tô quebrada. Tá tudo quebrado.

O problema é que eu não quero falar. Sou do tipo que sofre calada, pelo menos para os meus familiares. Sabe como é, eles me deram tudo, nada me falta, sou mimada pra caralho e eu não poderia pedir uma família melhor, ainda que seja perfeitamente estranha em sua sincronia. Não quero falar pra eles que eles criaram uma criancinha problemática com medo de rejeição e falta de esperança no resto do mundo e que quer estudar artes porque acha que isso vai resolver milagrosamente qualquer que seja a merda que está errada. Porque, sabe, deve doer que nem o inferno ver o sangue do seu sangue indo de mal à pior no seu estado emocional a cada dia que passa. Deve doer e eu não quero isso pra eles. Não por minha culpa.

É que eu não consigo ver ninguém sofrer. Cara, me dá um pânico de gelar a alma. Se tiver meu nome envolvido, pior ainda: é aquela famosa vozinha da consciência que repete sem parar que é tua culpa, sua filha da puta, você causou o mal. Eu não consigo ver ninguém sofrendo de verdade, porque eu sofro junto e três vezes pior.

E aí eu quero ajudar, quero estender a mão e acho que posso salvar essas almas perturbadas e no fim o que acontece é que eu acabo me afundando junto com elas. Porque , convenhamos, a tristeza e/ou felicidade de alguém só pertencem a ela mesma e não ao meu complexo de madre Teresa. Mas não é assim… É que eu só queria que alguém fizesse isso por mim, entende? E eu nunca tive coragem de pedir, então eu fico pensando que as outras pessoas também não devem ter mas precisam de uma luz no fim do túnel e que talvez eu possa, sei lá, acender o isqueiro se você precisar no meio de uma noite gelada e melodramática.

Eu só queria que alguém fizesse isso por mim, porque eu preciso muito de um cigarro e eu não tenho um isqueiro, entendeu? Eu preciso muito de uma mão estendida pra me ajudar a levantar desse buraco lazarento que eu nem entendo como é que ele me alcançou, ou se fui eu que me joguei dentro dele.

Às três e vinte e sete, uma hora depois, isso é tudo o que eu tenho a dizer, nem a metade do que eu gostaria de falar e eu não me sinto nem um pouquinho mais leve.
- Vamos fugir.

- Yeah.

- Pra onde você quer ir?

- Pro Outono.

- Isso não existe.

- Estamos sonhando, não?

- Na verdade, eu falei sério.

- Sobre fugir?

- Com você.

- Com você, eu vou.

- Vem?

- Aonde?

- Me encontrar.

- Agora? São três da manhã.

- Foi você quem me acordou pra conseguir um pouco de atenção.

- Achei que tivesse esquecido.

- Do que?

- De que não é tão vazio quando você está aqui.

- Mas eu nem ao menos sabia.

- É…

- Você se apaixonou?

- Por quem?

- Por mim.

- Ainda não deu tempo.

- Mas se nós fugirmos, juntos, falta de tempo não será um problema.

- (risos) Você se apaixonou?

- Acabei de.

- Por quem?

- Por você.

-Por quê?

- Você riu.

sábado, 23 de abril de 2011

Sempre ouvi falar da falta que a falta faz. Não entendia. Aí senti. Tinha tido um ponto final de um jeito não muito bonito, meio desesperado. Tinha sido aquela coisa de "acabou antes do tempo mas e daí?" Deu pra seguir em frente; sentindo falta, evitando lembranças, contato ou qualquer informação que eu pudesse ter sobre a sua vida, mas deu. Porque a ausência era boa, entende? O que tinha deixado de existir, por mais que tivesse falhas, era bonito, não machucava tanto.

Aí você voltou - e eu quis muito que voltasse, contradizendo o fato da ausência ser boa. Não era. O bom era apenas você. - E voltou com uma beleza muito maior, com mais necessidade, mais atenção, carinho e apego. Eu não sei se sinto que você me engana, se só não queria perder ou se voltou porque quis mesmo. Porque me quis, em algum momento, de volta.

A falta que a falta de algo bom faz não dói mais do que sentir falta de algo que não existiu, mas parece existir agora. Você está presente e mesmo assim me falta; eu te queria inteiro e eu não sei se acredito nas tuas palavras ou se aceito no que fica subentendido - contra a vontade e intuição - que só recebo migalhas. Ou recebo tudo? Não decifro.

Tanto faz, acredito que tenhamos tempo. Todo do mundo, só para continuar naquele clichê nada convencional em que você me colocou. Ou eu te coloquei? Ou minha mente ferrada e a minha insegurança te colocaram? Será que eu te amo mesmo? Ou é ego ferido? Mas se fosse ego ferido, teria passado... Eu não achei que o amor fosse durar, também, só que eu sinto por você supera o resto. E o resto é só o resto. Eu te amo calado e de um jeito tão vivo que não consigo entender como isso não vaza para fora de mim. Como não nota? Como não notam?

Existiu um nós? Existe? Ou éramos só eu e você unidos por aquilo que chamam de "lugar-comum?" Uma vez eu disse que existia, de um jeito estranho e bla bla bla, você lembra? Eu lembro? Não muito. Como eu respondo essas perguntas sem você aqui? Como eu deixo de questionar se você não está presente agora com a sua segurança? Não faz nem um dia inteiro. E faz muito mais.

Tô sentindo a sua falta.

Vê a confusão?

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Não sei se o erro foi seu, se foi meu, ou se foi nosso. Sei que foi - e ponto. Acho que nessa história de dividir a culpa, a parcela maior fica comigo, que me abri demais sem demonstrar. E a outra parte - pequenininha, que seja - contigo, por não ter lutado, esperado. Só não diria que é culpado por colocar as tuas necessidades na frente das minhas - eu fiz o mesmo contigo, por amor-próprio, instinto de sobrevivência.

Não é que eu não goste de você. Muito pelo contrário, acho que sabe bem da intensidade com que sinto as coisas por ti. Não é que você não goste de mim, também. Nós sabemos que é mútuo. É só que, dentro das suas escolhas, eu não me vejo mais nas suas possibilidades. Não queria tua rejeição, mas nós deixamos alguma coisa - aquela essencial, sem nome ou definição - cair e se perder no meio do caminho. E nem paramos para ver se conseguiríamos pegá-la no colo e fazê-la reviver.

Não te culpo, não me culpo. Culpo a vida que bateu na nossa cara tantas, mas tantas vezes e nos ensinou a desacreditar, a não investir no amor.

Não é que não fomos feitos um para o outro. Mas é que eu nasci pra mais tanta gente, e você também. Eu, na minha condição humana, não sei mais amar da forma que seria necessária para que nós pudéssemos funcionar. Você também não sabe - acho que é esse é o ponto onde nós somos parecidos. Só que assim acabo ficando nesse impasse: sei a solução, sei os meios, as circunstâncias... Só não sei como fazer para acabar com essa distância próxima, esse lugar comum que existe entre nós.

domingo, 16 de janeiro de 2011

special needs.

Amar por pena, por dó, por piedade - de si mesmo, dos outros, tanto faz - não dá, cara. Tem que ser pela alma.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O medo também me paralisa. Eis o grande paradoxo.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Ando me surpreendendo com a capacidade que tenho de não precisar. Tanta coisa mudou em tão pouco tempo que eu reconheço em mim mesma algumas características que estavam escondidas há muito. A individualidade imensa, o desapego rápido, a facilidade de abrir mão. Não é que não me apegue, mas dificilmente me surpreendo. Raramente vejo alguma reação que não julgo previsível, e quando vejo, admiro, fico feliz que nem tudo esteja tão perdido assim e tento me manter por perto para, quem sabe, mais surpresas possam aparecer.

Mas, sinceramente, se tivesse que deixar de lado, não me importaria tanto.

Ando num dilema imenso comigo mesma. Tenho um confronto de opiniões, idéias e emoções que chegam a me deixar enjoada. Por mais que eu goste da independência, ninguém vive sozinho e eu não quero não precisar. Quero me encantar pela trivialidade dos atos, pela espontaneidade; quero voltar a gostar de gente, a ser gente.

Sinto como se eu tivesse inúmeras personalidades e que cada uma delas se revela conforme a situação faz necessário que seja. Não sei mais o que sou, mas não finjo o que não sou - e sei bem o que não faz parte de mim, o que não condiz com a minha personalidade que, aqui dentro, se mostra tão confusa.

Tenho medo. Ter medo, porém, não só me comove, como me move.

Sinto uma falta imensa das pessoas, de não achar tudo tão podre.

Eu, no meu infinito particular, sou múltipla. Mas não me basto.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011


“When it was done and I went to sleep, I lay awake and listened to the clock on your nightstand and the wind outside and understood that I was really home, that in bed with you was home, and something that had been getting close in the dark was suddenly gone. It could not stay. It had been banished. It knew how to come back, I was sure of that, but it could not stay and I could really go to sleep. My heart cracked with gratitude. I think it was the first gratitude I’ve ever really known. I lay there beside you and the tears rolled down the sides of my face and onto the pillow. I loved you then and I love you now and I have loved you every second in between. I don’t care if you understand me. Understanding is vastly overrated, but nobody ever gets enough safety. I’ve never forgotten how safe I felt with that thing gone out of the darkness.”
— Stephen King (Lisey’s Story)
E explodiu.
Explodiu e agora corrói tudo, porque sinto uma necessidade tão intensa de você. De você em mim; e olha que, apesar do duplo sentido, isso não foi perversão.
Mas, sabe?
Não, não sabe. Nem eu sei.
Só sei que... Não sei.
Penso tanto em você. Queria tanto você.
"Pára!", o grito se fez audível dentro da própria cabeça enquanto qualquer outra coisa mais calma e educada disfarçava o que realmente estava se passando. Por dentro, surtava. As mãos tremiam. Os pensamentos se confundiam. A urgência vibrava. "Pára, por favor... Pára esse mundo. Eu quero descer. Quero fugir. Quero mudar de vida. Quero que seja com você."
Num dia qualquer desses aqui, estava fuçando, fuçando, e acabei por te encontrar. Sem querer; te vi ali e não pensei, quis saber como estava sua vida, se continuava bem, se estava sorrindo, se tinha ido bem na prova, se continua desenhando, se ainda teria aquela mesma expressão de superioridade. Cansei de fingir que não aconteceu, que não te conheço bem, que não lembro do teu sotaque, das horas no telefone, da pessoa bonita que eu sei que você é.

Quis que você quisesse o mesmo.

Quis saber se ainda tinha aquela parte de mim, apesar da mágoa, dos teus mil casos, dos meus acasos, dos nossos erros - aquela mesma parte que ficou esquecida dentro de você e não volta, também não quero. Eu te doei, foi presente, pode ficar.

Não quis voltar. Apenas senti falta da tua segurança. De não te achar covarde. De escrever textos imensos sobre como eu te amava apenas por amar, sobre como as possibilidades se fariam reais só por existirem.

Você sempre teve os teus - e os meus - pés bem fincados no chão. Mas eu preferia voar.

Erramos, eu sei. No tempo, não na pessoa. E nos perdemos.

Então eu vi. Eu vi, e sorri, o sorriso meio-amargo-meio-doce que se dá quando descobre que a pessoa que já não se ama mais seguiu em frente, como você.

Vi tuas mãos nele. Vi aquele eu te amo meio carente que você despejou em mim tantas vezes. Ele é tão feio, Amor. Mas acho que tudo bem... Olhe só pra mim, você sempre teve mau gosto.

Só queria que soubesse que fico feliz por você. Que ainda te quero muito bem - de uma forma diferente, mais contida, amigável.

Não fique pensando aí que eu ainda giro em torno do seu mundo.

É só que esse novo eu queria conhecer aquele novo você.
“(…) and then I asked him with my eyes to say again yes and then he asked me would I yes to say yes my mountain flower and first I put my arms around him yes and drew him down to me so he could feel my breasts all perfume yes and his heart was going like mad and yes I said yes I will Yes.”
Não pareço, mas sou.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Primavera já foi e eu nem vi as flores desabrocharem esse ano. Pensei por alguns segundos que talvez viessem durante o Outono, meu Outono, amado e adorado.

Mas há algum tempo já a minha estação preferida deixou de representar a felicidade toda que eu sentia pelos dias estarem tingidos das minhas cores favoritas. Tantas coisas caíram junto com as folhas secas... Tantas lembranças levadas embora, tantos cheiros, tantos gostos - que hoje ocupam lugar apenas na memória.

E há algum tempo já eu peço, pelo amor de Deus - eu não te acredito mas alguma coisa lá no fim tem que existir... - que meu Outono volte com as tulipas e rosas vermelhas, que venha recheado de Primavera, Verão, Inverno. Que venha recoberto pelas flores que não vieram, pelos sabores que não provei, pelos cheiros que não senti...