- Então… Como você se sente? – O homem, com óculos meia-lua levemente apoiados na ponta de seu nariz e cabelos quase brancos, perguntou. A menina – rosto de menina, cabeça de mulher – encolheu os ombros, ergueu as sobrancelhas. Não sabia o que responder diante daquela pergunta tão simples em seu formato e imensamente complexa em seu significado.
“Se eu ao menos soubesse…”, ela pensou. “Se eu soubesse explicar, eu diria. Às vezes tudo passa pela minha cabeça tão rápido que eu nem tenho tempo de identificar o que foi aquilo. São como relâmpagos. E eles me cortam e me estraçalham e acabam comigo. Rápido assim. Eu penso que a dor deveria ser imensurável, insuportável, mas não é. Eu não sei, sabe? Não sei. Como é que alguém tão pequeno assim aguenta ser quebrado ao meio todos os dias e não quebra por fora também? Como é que alguém assim anda, e fala, e ri, mas não se olha no espelho por muito tempo porque tem medo? Antes o problema fosse o espelho… Antes fosse… “
– Como você se sente sendo você mesma? Debaixo da própria pele?
Ela suspirou. Milhões de explicações perpassavam seus pensamentos, mas nenhuma conseguia ser exteriorizada. Engoliu em seco quando a dor constante deu uma pontada. “Eu queria ter vontade de chorar. Mas chorar por mim mesma e não por aquilo que eu vejo e me comove. Eu queria conseguir chorar pela minha própria situação e não pelo resto. Disseram que eu pareço seca por dentro. Mas não é por dentro não, é por fora. Por dentro a minha alma dói e tudo dói, até minhas tripas doem. Eu só queria tirar isso de mim.”
Suspirou, vencida. Enquanto seu cérebro gritava, sua boca não pronunciava sequer um som.
- Vazia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário