sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Pra começar, não sei. Estou sozinha em casa às duas e vinte e sete de um Domingo parcialmente infeliz em que minha mãe resolveu pra ir pra balada. Eu chorei por um tempinho porque li umas coisas bem profundas que nem ao menos dizem respeito a mim e aí eu pensei: Cara, que figura deprimente. Que cena digna de filme mexicano. E eu falei pra mim: linda, sua mãe tá aproveitando mais a vida do que você. Sua mãe, aquele poço de frieza, tá lá, se divertindo, virando umas tequilas com os amigos – algo que você não faz há um bom tempo porque, qual é, quem são os teus amigos que realmente estão dispostos a entornar umas curtas com você num dia e no outro realmente darem a mínima se você está do lado ou em casa ou na puta que pariu? Eu fico pensando nessas coisas, sobre amizade. É foda. A gente descobre que umas que estiveram ali a vida toda não querem mais estar no seu futuro e outras que chegaram agora queriam estar ali no passado só pra entender melhor como você chegou aos dezessete anos ferrada desse jeito.

Nem eu sei. Acho que isso tudo é mal do século XXI. Antes, ninguém tinha depressão sem causa detectada. Antes digo, há um bom tempo atrás. Eu acho que depressão nem existia há uns séculos atrás – tô falando dessa depressão estudada pelos especialistas onde eles culpam a sua infância toda pelos seus males e aí te receitam umas pilulazinhas azuis, vermelhas, amarelas, que seja, no final das contas é tudo tarja preta mesmo. Esse não é o ponto, o que eu quero saber é: será que alguém, em algum momento muito distante ou mais perto do que eu imagino já sentiu essa porcaria toda? É porcaria ou é doença?

Porque, cara, eu era tão viva. Do tipo de pessoa que se você olhasse por dentro, dava até inveja. E agora eu tô aqui, sentada com os meus gatos e me perguntando se algum dia vão – ou vou – reacender aquela chama de vivacidade em mim. Mesmo que eu tenha parado de acreditar nela.

É que, porra, eu vivi tanto e eu senti tanto e doí tantas vezes que eu acho que eu perdi as esperanças de se sair disso ilesa. Eu sempre fui muito convicta de que “ah, ninguém morre de coração quebrado, não vai acontecer nada comigo que vá me impedir de seguir em frente, porque pedra no caminho a gente chuta e bla bla bla”, mas olha só pra mim agora. Eu queria que alguém olhasse pra mim e visse que eu to desmoronando e que a queda não vai ser brincadeira não; vai triturar meus ossos e não existe médico no mundo que seja capaz de reconcertar o estrago.

Meu pai me disse uma vez, há uns três anos atrás: Você tem 15 anos e já se sobrecarrega desse jeito.

Daddy, você não tem noção como eu cheguei nos 17. O peso cedeu. Tô quebrada. Tá tudo quebrado.

O problema é que eu não quero falar. Sou do tipo que sofre calada, pelo menos para os meus familiares. Sabe como é, eles me deram tudo, nada me falta, sou mimada pra caralho e eu não poderia pedir uma família melhor, ainda que seja perfeitamente estranha em sua sincronia. Não quero falar pra eles que eles criaram uma criancinha problemática com medo de rejeição e falta de esperança no resto do mundo e que quer estudar artes porque acha que isso vai resolver milagrosamente qualquer que seja a merda que está errada. Porque, sabe, deve doer que nem o inferno ver o sangue do seu sangue indo de mal à pior no seu estado emocional a cada dia que passa. Deve doer e eu não quero isso pra eles. Não por minha culpa.

É que eu não consigo ver ninguém sofrer. Cara, me dá um pânico de gelar a alma. Se tiver meu nome envolvido, pior ainda: é aquela famosa vozinha da consciência que repete sem parar que é tua culpa, sua filha da puta, você causou o mal. Eu não consigo ver ninguém sofrendo de verdade, porque eu sofro junto e três vezes pior.

E aí eu quero ajudar, quero estender a mão e acho que posso salvar essas almas perturbadas e no fim o que acontece é que eu acabo me afundando junto com elas. Porque , convenhamos, a tristeza e/ou felicidade de alguém só pertencem a ela mesma e não ao meu complexo de madre Teresa. Mas não é assim… É que eu só queria que alguém fizesse isso por mim, entende? E eu nunca tive coragem de pedir, então eu fico pensando que as outras pessoas também não devem ter mas precisam de uma luz no fim do túnel e que talvez eu possa, sei lá, acender o isqueiro se você precisar no meio de uma noite gelada e melodramática.

Eu só queria que alguém fizesse isso por mim, porque eu preciso muito de um cigarro e eu não tenho um isqueiro, entendeu? Eu preciso muito de uma mão estendida pra me ajudar a levantar desse buraco lazarento que eu nem entendo como é que ele me alcançou, ou se fui eu que me joguei dentro dele.

Às três e vinte e sete, uma hora depois, isso é tudo o que eu tenho a dizer, nem a metade do que eu gostaria de falar e eu não me sinto nem um pouquinho mais leve.

Nenhum comentário:

Postar um comentário