(...)
- Desculpe. - Frank proferiu, se ajeitando no assentou de madeira. Encostou as costas, cruzou os dedos sobre as pernas e murmurou, cansado. - Problemas no trânsito.
-Achei que não vinha mais. - O outro disse, fechando o livro em suas mãos com um baque. O garoto ao lado pulou em susto, amaldiçoando em voz baixa algo que nenhum dos dois entendeu. Gerard não perdeu a expressão calma, no entanto. Fitou demoradamente o rosto do outro, vendo sua expressão se contorcer em desgosto de um modo que parecia não querer, por algum motivo desconhecido até então, olhar para o rosto do mais velho.
E não queria, mesmo. Sabia que se perderia ali, que ao olhar nos olhos estaria dando um passo para trás; que ficaria vulnerável, novamente.
- Não tem trânsito por aqui, Frank. -Disse Gerard, seco.
Ficaram em silêncio, então. Ambos desconfortáveis pelo barulho irritante que Frank fazia ao amassar com a ponta dos sapatos algumas folhas secas no chão.
Nenhum dos dois soube falar quanto tempo ficaram naquilo - provavelmente um ou dois minutos -, só que o silêncio se tornava cada vez mais longo, desolador. Frank finalmente dirigiu seu olhar ao lado, as grandes esferas esverdeadas em seu rosto demonstrando uma mágoa que Gerard nunca havia visto antes nele. Grunhiu pela visão, ferido pela dor que via naqueles olhos tão atípicos, que admirava tanto, que considerava tão seus.
- Você está certo, eu cogitei não vir... Eu fico tão bravo o tempo todo. - O pequeno resmungou, as sobrancelhas franzidas demonstrando que não sabia direito como organizar as palavras. - Com você. Comigo.
Sentiu uma das mãos do outro espalmadas em uma de suas pernas, carinhosa, deslizando os dedos devagarzinho como se o incentivasse a continuar.
- Fico bravo porque é errado, e não só com nós dois. É errado com todo mundo, mentir assim. Com elas. Com eles. Fico bravo porque eu não sei o que fazer... Eu só sei que eu simplesmente não posso te tocar em público - mesmo que inocentemente -, te lançar um sorriso, um olhar cúmplice, ou apenas pensar em um dos momentos que tivemos juntos sem me sentir culpado pelo ato depois. Mesmo que seja algo simples; a culpa é tão grande. E o mundo já é tão cheio de merda - eu já estou tão cheio de merda. Nós dois juntos só estamos contribuindo para que ela fique ainda maior.
- Você sabe que isso não está em nossas mãos, Frank. - Gerard negou de imediato, sabendo que no fundo concordava com aquilo tudo, porém sem aceitar, de modo algum, a solução que ambos sabiam qual era para aquele assunto. - Eu...
- Está, sim. - Cortou-o, o rostinho de anjo agoniado por finalmente estar tendo aquela conversa. - E elas já estão tão sujas que eu não consigo mais imaginar como vamos nos livrar dessa porcaria toda.
- Nós não vamos. - A resposta foi rápida, sem rodeios. - Eu não quero. Você não quer. E sabe por que? Porque isso significa ter que abrir mão de nós dois, e nem você e muito menos eu conseguimos fazer isso.
- Você não consegue abrir mão dela também.
- Consigo. Só acho canalhice.
- Mentira.
- Verdade.
Sorriram, então. Gerard segurou o rosto do pequeno em suas mãos, olhando-o bem nos olhos, quase como se o visse todo por dentro. E Frank sabia que ele via, que o conhecia melhor do que ninguém. Que não viveria se não tivesse a sensação de calmaria que aquele toque lhe passava, mesmo que fosse escondido por anos e anos e anos. Era algo particular; errado, mas tão certo para os dois. O maior beijou-lhe os lábios , roçando-os por uma fração de segundo, e então disse, brincalhão.
- Eu gosto dela. Delas. E eu gosto deles, também.
Recebeu um tapa leve, antes de continuar, porém dessa vez com o tom firme, de quem tem certeza do que fala:
- Mas você, meu bem... Você eu amo.
-x-
Dois anos nessa de "os outros são só os outros." E são. Eu te amo tão mais.
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