“Você tem cheiro de relva molhada pela manhã”, foi o primeiro pensamento que lhe percorreu a mente quando os olhos se abriram pela primeira vez naquele dia. Ele notou, ainda despertando, as sensações do sonho que havia tido ainda presentes em seu corpo, que não estava sozinho na grande e confortável cama. O cheiro que o ambiente exalava não provinha somente das incessantes gotas que caíam lá fora, mas como também era o misto de um perfume peculiar e suor de um corpo que o esmagava protetoramente, do mesmo modo como seus braços, até o momento inconscientes do ato, também exerciam tal força como resposta ao toque.
A partir daquele momento, quando pareceu estar já totalmente desperto, as lembranças da noite anterior o atingiram em cheio: os sussurros doces, a inocência que aos poucos havia sido totalmente extinta, os movimentos , a luta carnal pelo poder e, em algum momento, algo emocional, concreto, muito parecido com o que se sente no início de um romance.
“Por que?”, perguntou-se, enquanto o sentimento não tão desconhecido lhe tomava o peito sem qualquer tipo de aviso prévio; não pôde evitar um sorriso terno e abobalhado que lhe surgiu nos lábios ao fitar o rosto diante ao seu, as respirações se mesclando sem que nenhum dos dois se sentissem incomodados pelo calor que o ato transmitia. Lembrou-se da sensação agradável que se tem quando algo como cumplicidade e disparos no peito são compartilhados; a pessoa era outra, porém o princípio nunca deixava de ser o mesmo.
A chuva silenciou o grunhido manhoso que lhe escapou quando percebeu que se encontrava sem vestimenta alguma; a estrutura corporal perdida em lençóis de seda bordô e um emaranhado de pernas enroladas entre si. O transe que se encontrava transformou-se em um leve constrangimento e este se tornou uma risada nasal e contida, mas alta o suficiente para que o outro abrisse os olhos, amáveis e confusos.
Olharam-se, sabe-se lá por quanto tempo. A importância do momento não estava na duração do mesmo, mas sim na intensidade em que este ocorria. Afagos e corações pulando algumas batidas mostraram que ali, entre os dois, havia se criado uma necessidade mútua e profunda; uma possibilidade de amor, talvez.
Uma claridade acinzentada adentrava o ambiente, indicando que ainda estavam nas primeiras horas do dia e não foi preciso muito mais do que um olhar silencioso para ambos parecerem concordar no que deveriam fazer em seguida. Os corpos não estavam suficientemente descansados e naquele momento pareciam possuir a eternidade nas mãos, sem realmente se preocupar com o quanto dormiriam. O que importava era que sabiam que não iriam a lugar algum.
O pequeno homem, que havia despertado primeiro, teve seu corpo apertado com precisão entre os braços pálidos, macios, e um suspiro de deleite foi emitido involuntariamente pela boca rosada e bem contornada. Antes que fechassem os olhos, juntos, notou que o olhar que lhe era lançado não continha apenas a capacidade de aquecer-lhe o corpo, mas sim que também parecia penetrar-lhe por todos os poros possíveis, sem malícia alguma, apenas com a naturalidade de alguém que parecia conseguir ver-lhe por inteiro, enxergar o seu íntimo – e, principalmente, sem fazer qualquer tipo de julgamento sobre o que tinha conhecimento.
Um último pensamento lhe ocorreu antes que se entregasse novamente ao sono reconfortante: não era só o corpo que havia sido despido.
O coração, agora além de seguro, estava nu.
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